Primeira parada: Santos/SP

Primeira parada: Santos/SP

10 Mar 2014

por Karol Nurza

 

Depois do último final de semana em Santos, dando início à itinerância do Ubu por algumas cidades do estado, me peguei com algumas indagações supersticiosas. Um ciclo que começa de forma conturbada pode ser salvo da “zica” ou será contaminado completamente? Será que descemos da van com os pés esquerdos? Alguém quebrou um espelho do estojo de maquiagem?

Como bons interioranos, não poderíamos passar por uma cidade litorânea em pleno verão sem tirar pelo menos algumas horas para passar na praia. Pois bem; van carregada, pé na estrada. Saímos com dois dias de antecedência para isso, mesmo com a previsão do tempo acusando chuva para esses dois primeiros dias. Lá fomos recebidos pela Sarah, do Coletivo Nave Cultural, o qual preparou o terreno para a chegada do simpático e inescrupuloso Pai Ubu em terras santistas e nos deu toda a assistência necessária durante nossa passagem por lá. Nos foi disponibilizado um apartamento de frente para o mar e a cerca de dois quarteirões do ferry boat que conduz, em poucos minutos, os pedestres até Guarujá.

Seguido de dois dias de descanso, areia e maresia, o início da tarde em que nos apresentaríamos começou a dar indícios de más notícias. Embora houvesse ainda sol, o tempo parecia estar fechando rapidamente e, como prenunciado, a chuva apareceu e decidiu brincar com a gente de pique-pega na hora de descarregar tudo e erguer o nosso andaime-cenário. Justo na hora de trabalhar! Uns desenhariam um sol no chão, ou na areia, para espantar o toró. A apresentação que estava marcada para acontecer no Emissário já havia sido transferida, com antecedência, para a Fonte do Sapo porque chocava com um show gospel com o qual não poderíamos competir. Já na fonte, a chuva começou quando descarregávamos as coisas da van; “re”carregamos e fomos para um local coberto disponibilizado pelo Coletivo, mas ao chegar lá descobrimos que o pé direito não era alto suficiente para comportar o andaime (olha o pé quente aí fugindo da gente), e nesse meio tempo a chuva parecia ter dado arrego, trazendo a esperança de fazermos uma segunda tentativa na Fonte, e lá vamos nós para a boca do sapo novamente; e quando todos os instrumentos da “bandinha” já estavam montados e em posição, o camarim quase erguido e o andaime já iniciado, o céu não perdoou e mandou mais água do que nós mesmos poderíamos supor. Já era. Fim das possibilidades.

Só que não.

Ao guardarmos tudo de volta e entrarmos na van derrotados e encharcados, lembramos que os parceiros da Trupe Olho da Rua estavam realizando um sarau na Vila do Teatro, espaço cultural ocupado e gerenciado por coletivos artísticos em Santos e sede de grupos como a própria Trupe. Mesmo já exaustos pela sucessão de frustrações e por aquela sensação de “parece que não é pra gente se apresentar hoje mesmo”, entramos em contato com o pessoal e fomos até lá verificar essa última possibilidade (afinal, o dia já estava chegando ao fim). Já no caminho a chuva foi passando, e chegando na Vila vimos que ela ficava em frente à Praça dos Andradas e ao lado da Cadeia Velha, que era um lugar lindo e bem propício para abrigar o palácio de O Lugar. Conversamos com a Trupe e pronto, eles nos encaixaram na programação do sarau. Finalmente a bufonaria aconteceu ali, aos trancos e barrancos, por volta das dez da noite; até mesmo a Sarah do Nave Cultural, que nunca havia feito teatro e nem pensava nessa possibilidade, entrou na dança como oficinanda e participou da peça. E tudo aconteceu com uma energia inexplicável tirada não-sei-de-onde.

Começamos nossa circulação já com a retomada de uma “lição” básica que a arte de rua impele ao artista: a de que tudo pode acontecer e nada há de abstê-lo de fazer o seu trabalho - nem mesmo a má sorte. E, como diria Stevie Wonder, quando se acredita em coisas que não se pode compreender, você sofre. Superstition ain’t the way!

 

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