Piracicaba marcando a metade da circulação

Piracicaba marcando a metade da circulação

16 Abr 2014

por Nathália Fernandes

Como o famoso ditado diz, “Nada é por acaso...” E não foi por acaso que, antes de viajar para Piracicaba, onde realizaríamos nossa quinta apresentação pela Circulação do PROAC, viajei de Ribeirão Preto para São Carlos, onde faço curso de especialização na pós-graduação da UFSCar, em Gestão em Economia Solidária.

- “O que é isso, tia Nath?”

É simplesmente um jeito diferente de pensar em produção, distribuição e geração de riqueza e renda. Ela se opõe ao capitalismo e está pautada na valorização da vida e do ser humano. Sim, é complexo, utópico e real! Pois neste dia na UFSCar, ao invés de uma aula formal e comum, fomos participar da 2ª Conferência Regional de Economia Solidária, que teve como participante o mestre e fundador da Economia Solidária mundial, Paul Singer. Um “senhorzinho” já um tanto quanto debilitado, mas com um carisma incrível que entre inúmeras frases disse que os seres humanos só conseguem ser felizes coletivamente, e que o mais importante que levamos da vida são os laços que estabelecemos entre as pessoas.

A pessoa, a fala, todo o contexto daquele encontro me emocionou muito. Porque acredito que o teatro é, acima de tudo, uma ferramenta social, e quando o escolhemos como profissão temos que ter em mente que além do prestígio de subir e estar num palco, teremos uma longa jornada pela frente que envolve a transformação social de um novo mundo possível.

Enfim, chega de divagações e vamos continuar a história. Logo após o almoço peguei um ônibus para Piracicaba, pois teríamos ainda uma apresentação do grotesco “Ubu Rei”, que também contribui com nosso relato revolucionário ao contar a história de um tirano que derruba o rei do trono e rouba sua coroa de uma forma corrupta. Entretanto, por seu reinado ser absurdo e nada democrático, o povo se rebela e derruba Ubu do trono. Na história do Boccaccione o Ubu foge e com certeza irá aprontar em outras terras.

Na minha história também, mas naquela cidade onde passou, seu povo nunca mais será o mesmo. Está fortalecido, unido, e pronto para lutar e derrubar outros reis, se assim for necessário. Ao desembarcar, encontrei a Cia. num bairro periférico da cidade de Piracicaba, chamada Vila África. O bairro tem uma história bem bonita e antiga de pura resistência do movimento negro na cidade. Nosso camarim foi montando na Casa do seu Faé, um artesão, agitador cultural e guardião da história da Vila África; senhor negro muito simpático, que tem em seu barraco aconchegante cheio de fotos de pessoas, artistas e atividades que tiveram na Vila, onde apresentaríamos. E ali estava nosso cartaz de circulação, pregado na parede da humilde casa de Seu Faé.

Foi emocionante ver que o Boccaccione, a partir daquele instante, também faria parte daquela história. Os “oficinandos” já estavam concentrados nos exercícios, e a maioria já tinha experiência com teatro na cidade, o que proporcionou um encontro artístico de diferentes grupos locais. Em determinado momento, vi os dez integrantes da companhia mais os doze oficinandos, todos apertadinhos, no barraco do Seu Faé decidindo se apresentaríamos naquele dia ou se cancelaríamos a apresentação. A chuva resolveu cair minutos antes da apresentação pra saudar esse nosso encontro, e não teríamos mais tempo hábil para nos deslocarmos ao plano B, que seria um local coberto.

Fizemos uma reunião rápida, na qual levamos principalmente em consideração o público - em sua maioria moradores do bairro -, que estavam já em frente ao cenário, segurando guarda-chuvas, esperando o “espetáculo” começar. E sim! Fomos todos nós, lavando a alma com a água vinda do céu, apresentar e dar nosso melhor no asfalto abençoado da Vila África , onde a desigualdade social é tão latente e onde nós, artistas, nunca podemos esquecer de estar. A apresentação foi uma guerrilha onde ora estávamos vencendo, ora a chuva e os figurinos molhados e pesados venciam. Mas de qualquer forma a batalha foi nossa, porque o público se manteve ali, embaixo de chuva, até o final do espetáculo.

Ao terminar, desmontamos o cenário e carregamos a van e carretinha, ainda debaixo de chuva. Fomos à sede do Coletivo Piracema, tomamos um banho quentinho e também jantamos deliciosamente, com direito a bolo de chocolate feito especialmente pelas moradoras da Vila África. Como se o dia não bastasse, o grupo e o coletivo se reuniram na sala da casa-sede, cada um com seu instrumento, e uma sequência de samba e “hits de verão” fecharam aquele dia, aquela noite, aquele encontro único. Aí, me perguntam: - “O que Economia Solidária, Teatro, Desigualdade social, tem relação com isso tudo?” O que ocorre é o que o PIB - Produto Interno Bruto, está ultrapassado. Estamos falando de um processo de construção e transformação de um novo mundo. Onde o PIB, foi substituído ao FIB - Felicidade Interna Bruta. E, neste dia, pudemos como grupo proporcionar uma felicidade desigual a estes moradores.

Para quem quiser conhecer mais sobre a Vila África. segue um mini documentário que o próprio Coletivo Piracema, que nos recebeu, produziu:

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