De Piracicaba para Pindamonhangaba

De Piracicaba para Pindamonhangaba

23 Abr 2014

por Marcelo Ribeiro

O Imprevisível Imprescindível

“Também a arte é apenas um modo de viver, e é possível se preparar para ela sem saber, vivendo de uma maneira ou de outra. Em tudo o que é real há mais proximidade dela do que nas falsas profissões semi-artísticas que, ao simular uma proximidade da arte, na prática negam e atacam a existência de qualquer arte.” Assim escreve Rainer Maria Rilke, um artista de alma inteira por quem tenho sincera e profunda admiração.

O que isso tem a ver com a nossa sexta apresentação desta circulação? Bom, vamos lá... Após apresentar para vários guarda-chuvas abertos sob o céu nada estrelado de Piracicaba, a nossa Cia. Teatral Boccaccione torceu os figurinos, enxugou o cenário e seguiu rumo ao Vale do Paraíba! A grotesca nau de Pai-Ubu ancorou em Pindamonhangaba, na esperança de que os ventos soprassem não somente as velas, mas também levassem as nuvens carregadas pra bem longe. E elas foram pra um lugar distante. Distante da na nossa previsão! Eram cinco horas da manhã quando tocamos a campainha do “Coletivo Mixgenação”, que não só abriu as portas de sua aconchegante sede, como também nos banqueteou com um delicioso café da manhã! Mas antes de desfrutar desta hospitalidade ainda tínhamos um dever: estender os figurinos encharcados durante a última apresentação. Assim se deu, trabalhamos e nos alimentamos como uma boa trupe de teatro de rua e um pouquinho antes de dormir um pensamento veio à tona - será que alguém colocou os ovos no telhado para Santa Clara? Ah, sei lá... Vai que ajuda! Mas não foi preciso, o dia amanheceu ensolarado e os nossos figurinos estavam secos e prontos para habitarem o palácio do "Rei Venceslas".

Os ventos sopraram a nosso favor. Ufa! E foi numa bela e cavernosa praça que a representação iria acontecer. Encontramos um lugar plano, a sombra estava perfeita e a previsão era que o sol se poria ao final do espetáculo. Estava tudo no seu devido lugar... Nosso andaime estava de pé, a banda já estava posta, restava somente o som agudo e estridente do trompete para anunciar o início da peça.

Foi neste momento que tudo mudou. As nuvens carregadas que estavam escondidas nas profundezas do vale deram as caras e desaguaram sobre nossas cabeças, antes mesmo delas serem descerebradas. E agora? Apresentar ou não apresentar? Tempestuosa questão! É aí que nosso sábio Rilke entra na jogada. Ao olhar o público novamente, se protegendo embaixo dos galhos das árvores, esperando com sorriso o teatro começar, e ao observar os “oficinandos” postos, ansiosos, prontinhos para gritar MERDRA, não tivemos dúvida: O espetáculo não pode parar!

E mais uma vez a arte nos ensina, pois mesmo sem saber, estávamos preparados. A apresentação nos divertiu, divertiu o público e gerou reflexão... Precisávamos debater esta imprevisibilidade toda. E não há melhor momento pra pensar, que não seja após um delicioso jantar preparado com carinho pelos queridos do Mixgenação. Dito e feito! Antes de pegar a estrada de volta para Ribeirão, trocamos figurinhas, risadas, experiências e ideias com a galera do coletivo. Encontro necessário de uma equipe que não penas vive daquilo que se quer, mas também reflete aquilo que se faz.

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